É comum quando se nasce numa pequena comunidade rural como é o Caso da Vila de Arouca, participarmos nas coisas da vida familiar ou da comunidade em geral. A nossa primeira iniciação é nos dada pelo baptismo, e pelo nome que nos legaram para sempre. Eu tive a sorte de ser baptizado na imponente Igreja monástica da Vila Monástica e Republicana de Arouca, e de ter um nome. O de Fernando dado pela minha madrinha e tia Fernanda de Almeida Matos Stoner-Jachson. A parteira que auxiliou ao parto da minha querida mãe, Beatriz de Almeida Matos foi a angelininha do convento, que com as suas mãos sábias e abençoadas pela providência e saber do Doutor Manuel Simôes Rodrigues, possibilitaram que as mães da Vila e arredores de Arouca tivessem os filhos em casa, no aconchego da familia e do lar. O nascer era uma epifania, um momento de revelação de vida e de graça. Eramos comunidade, partilhavamos esse pathos original, que era ser natural de uma terra. Ser de Arouca. Sim com muito orgulho.
Crescer, viver, brincar, jogar, trabalhar e estudar foi a nossa constante trajectória de vida. Partilhavamos a mesma Vila, as mesmas ruas, os mesmos logradouros, a mesma praça, o mesmo terreiro, a mesma identidade espacial que fazia de Arouca a nossa Terra. A minha Terra. Aprendemos as primeiras letras na Escola Primária de Arouca, com a preciosa ajuda da minha professora, que de vez enquando, era auxiliada por uma cana e umas reguadas que nos faziam sentir o peso da responsabilidade e a importância da escrita, da leitura e do calculo para a nossa formação. No recreio da escola a interação era total e dura às vezes. A classificação e a diferenciação social também lá estavam mas de forma sublimada. Eramos tão ingénuos, tão puros, que sentiamos a descriminação mas não compreendiamos a sua origem.
As tardes eram passadas entre a Escola e a Rua. As nossas casas davam para todas as casas da rua, esse oceano imenso de perfumes, de devaneios, de jogos, de brincadeiras, de partidas, de sonhos e utopias. Nós também sonhavamos com bonecos e brinquedos feitos de madeira, arame e barro. A quem davamos nomes sonantes e vida. Imaginavamos o mundo do tamanho da nossa Vila. A nossa Vila é o mundo inteiro e mais a serra da Freita. Esse espaço de interdito e de aventura. Um pedaço de terra e água, de luz e muito sol, de bichos e lacraus, de homens e mulheres, tapados desde a cabeça aos pés, de preto e as crianças muito brancas e de um loiro brilhante como o trigo. Uns cantares que vinham de dentro da alma e nos deixavam o corpo com pele de galinha. Eram vozes de outro mundo, de outro imaginário, antigas, belas e harmoniosas. Estranhas vozes eram aquelas que ao fim das cerimónias religiosas entoavam canticos e rezas.
As festas, os jogos, as cerimónias eram espaços de participação onde todos os jovens exprimiam as suas vocações, os seus imaginários e eram sobretudo momentos de celabração colectiva. Parentes, amigos e vizinhos participavam como actores privilegiados. A Festa de S. Bartolomeu e acima de tudo a Feira das Colheitas eram momentos de consagração ao ludico e ao festivo. As ruas enchiam-se de gentes, de vendedores e forasteiros, de cores e musica, de entretenimento e jogo para os lados do Parque da Vila. A Praça Brandão Vasconcelos encia-se de bandas e figurinos, de floclore e concertinas, de cantares ao desafio e cramois. Homens de preto com chapeus solenes, mulheres de véu e cartilha a caminho do sagrado. Sem esquecer as tarde e as longas sessões da noite no Cinema de Arouca. A quem presto na pessoa do Senhor Valdemar Duarte a minha sincera homenagem. As visitas que faziamos à Defesa de Arouca para apanhar uns papelinhos de cores diferentes que o amigo Gonçalves ia dando à pequenada. Ficavamos a olhar para aquela máquina rotativa a imprimir noticias, nomes conhecidos e figuras de Arouca. Era um reino maravilhoso. Ver nascer a comunicação e a informação. Mais tarde tivemos o privilégio de aí publicar os primeiros artigos sobre a história local.
As tardes de estudo e de leitura na Biblioteca da Gulbenkian em frente à Praça de Arouca foram o primeiro contacto com a cultura, a arte e a ciencia. Na companhia dos amigos e parentes. Entrar naquela sala cheia de estantes e livros, era como entrar no Mundo Inteiro. A Luizinha Alegria sempre disponivel e meiga, lá nos mostrava as novidades da literatura, da musica e do teatro. Falava-nos de Eunice a rainha da arte de representar. Era local de encontro e de namoro também. Ainda lembro quando a minha irmã me inscreveu na biblioteca e tive direito a um cartão. Que alegria ter um cartão com o meu nome. Hoje, é coisa banal e insignificante. Estamos cheios de cartões, oferecem-nos cartões por tudo e nada.
As tardes de estudo e de leitura na Biblioteca da Gulbenkian em frente à Praça de Arouca foram o primeiro contacto com a cultura, a arte e a ciencia. Na companhia dos amigos e parentes. Entrar naquela sala cheia de estantes e livros, era como entrar no Mundo Inteiro. A Luizinha Alegria sempre disponivel e meiga, lá nos mostrava as novidades da literatura, da musica e do teatro. Falava-nos de Eunice a rainha da arte de representar. Era local de encontro e de namoro também. Ainda lembro quando a minha irmã me inscreveu na biblioteca e tive direito a um cartão. Que alegria ter um cartão com o meu nome. Hoje, é coisa banal e insignificante. Estamos cheios de cartões, oferecem-nos cartões por tudo e nada.
Mais tarde, com o 25 de Abril nasce a consciência politica e a cidadania inclusiva. É o tempo das revoluções, das manifestações, das greves às aulas, das lutas políticas que entravam pela Escola Preparatória e Secundária de Arouca. Professores militantes e activistas, alunos de cabelos compridos e intelectualizados, palavras que se diziam na rua, sem nexo e sem sentido. Todos na praça e na rua, noite dentro e linguas afiadas. A discussão e a partilha eram a regra e a excepção. Falava-se pouco de politica, mas discutia-se muito a liberdade, a democracia, e por oposição o fascismo e o salazarismo. Recordo a grande ovação no autocarro que partia da vila em direcção a Santa Eulália, com os alunos da vila, e o Toni dispara: MORREU O FRANCO. VIVA A LIBERDADE! Todos em unissono gritaram morte ao Franco e vivas à liberdade. Ninguém sabia quem era o Franco. Mas era o perfume da liberdade, da participaçao e da democracia. Os cravos ainda estavão a abrir, a despertar, e apontavam para um futuro de esperança.
Pela primeira vez a nossa comunidade dividiu-se em duas partes distintas. Com pais e filhos em lados opostos, divididos pela razão e crença na liberdade e na democracia popular. De um lado os progressistas, revolucionários e democratas; do outro, fascistas e salazarentos. Eram tempos de consagração e de celebração, mas também eram os tempos dos ismos, dos esquerdismos, dos radicalismos ideológicos. A vida social parecia uma pelicula de cinema a preto e branco, não existiam outras vias e outras cores. Esta realidade politica empobreceu a sociedade e diabolizou tudo e todos que não tivessem um passado comunista e revolucionário. Na nossa sociedade também se fizeram autos de fé, poucos mas fizeram-se. Listas com nomes, com gente boa e gente má. Filhos que abandonaram a casa, a familia e os parentes. Pais que envergonhados calavam as mágoas no altar da Rainha Santa e rogavam por milagre. O direito, a autoridade e a mão de Deus foi deslocada da sua centralidade social. O mundo tinha mudado de forma tão veloz que não dava possibilidade de objectivar fosse o que fosse. Andavamos todos na onda. Cabelos compridos, calças de ganga, gabardines compridas, discos de Jim Morrison, o Roch na algibeira, a coca-cola, e os UHF...e a crença no sexo e na liberalidade dos costumes.
Com a década de oitenta e noventa reforça-se o associativismo cultural e ambiental. A causa ecológica e a defesa do ambiente começam a fazer parte do nosso imaginário social e entram na nossa cidadania activa. Fundamos associações e movimentos locais e regionais. Organizaram-se encontros e jornadas em prol da defesa do património e do ambiente. A luta contra a plantação dos eucaliptos em Arouca e na bacia do rio Paiva com a colaboração da QUERCUS, na pessoa do seu fundador Serafim Riem. Anos de encontros de Movimentos Ambientalistas em Arouca, Paiva, Porto, Lisboa, Aveiro, Coimbra, Viseu, etc.etc. Nasce a preocupação de participar activamente na vida publica, aparecem os partidos politicos e as filiações. Uma geração inteira e nova que acredita que o sonho comanda a vida.
É neste contexto de vida e de cidadania que me sinto mandatado a disponibilizar-me para ser candidato a Presidente de Câmara de Arouca: em nome do passado, da memória e acima de tudo pela construção de um FUTURO MELHOR PARA AROUCA.
