sexta-feira, 10 de abril de 2015

O Pantagruel de Arouca



  Image result for doçaria conventual de arouca          A doçaria conventual de Arouca tem sido elemento constante da comensalidade e da mesa de muitas gerações de arouquenses, que na sua terra ou lá longe da terra, estabelecem uma ligação uterina com as sua origens. Os doces conventuais são presença indispensável nas cerimónias religiosas e nas festividades familiares, construindo em seu torno uma fina teia de ligações afectivas e culturais entre todos os arouquenses.
            A sua delicada apresentação, com formas geométricas mais ou menos puras, com  texturas fortes, a cor branca é dominadora na forma subtil como envolve conteúdos e segredos do seu fabrico artesanal. Uma verdadeira obra de arte, pintada a branco e amarelo. Quando apresentados em mesa são de uma beleza monumental. Associando três elementos fundamentais a pureza, a simplicidade, e o bom gosto.
            Toda a obra de arte tem um autor. A doçaria conventual de Arouca também é obra de autor. O seu nome é conhecido por todos aqueles que amam a arte e a beleza da mesa. Como todo o artista também o Manuel Bastos teve o seu mestre. Que lhe ensinou a pegar na massa com as mãos e a construir doces, doces conventuais segundo uma tradição que as mãos sábias de uma mulher do povo soube guardar e transmitir.
            Um homem de barbas pretas e fartas, de barriga bem feita, com mãos fortes e delicadas desenha obras de arte em açúcar, farinha e ovos. Sempre atento ao mundo, ao seu mundo – a sua terra. Com uma personalidade afavel, dialogante, mas crítica perante a vida e o mundo. Um verdadeiro filósofo da mesa na forma como trata o humano.
Uma arte efémera que estabelece relações analógicas com a biologia e a natureza. Estamos perante uma actividade artística de dimensão estética erudita, porque associa a simplicidade da forma estética à complexidade do seu fabrico artesanal. Uma arte de esculturas em miniatura, produto de uma tradição doçeira que mergulha nos grossos silêncios do passado histórico da vila monástica de Arouca. Uma arte de segredos e mistérios em função de um tempo mítico e fundador.     
           


Casa do Souto (Douro) aos 19 de Abril de 2004







quarta-feira, 11 de março de 2015

Os Sete Pecados Capitais



Os Sete Pecados Capitais foram definidos pela Igreja Católica, no final do século VI, durante o papado de Gregório Magno, num contexto de Reforma da Igreja Católica num período de grandes convulsões sociais, política e económicas. Com a Queda de Roma e o Fim do Império Romano, o ocidente cai numa espécie de vazio de poder político e religioso. Era urgente moralizar a vida social, refrear os apetites mais selvagens e imorais dos senhores e alcaides da época. 

Bem aproposito da forma forma como as nossas "elites" governam o nosso país e a forma como se comportam perante a coisa publica. O interesse público é saqueado por uma elite de ricos-homens que sem o mínimo de pudor usam a sua posição na gestão política para saquear os cofres do Estado em beneficio próprio.

Banqueiros, gestores, mediadores e directores que durante décadas desviaram, roubaram, capturaram os dinheiros públicos e privados em beneficio próprio e das suas cliques. Uma espécie de máfia financeira que abusou, criminalizou o sistema, destruiu a confiança entre os cidadãos e as instituições. 

Foram vaidosos, gananciosos,  criminosos, imprudentes e insensatos. Destruíram os pilares da confiança democrática em prol de interesses particulares e de grupos. Tiveram a cobertura do sistema, dos media, dos partidos políticos, das instituições internacionais não governamentais. Passearam-se pelos espaços do poder, foram membros de conselhos de Estado, davam e opinavam sobre como se devia governar o país. Com toda a desfaçatez propuseram nomes para governar este país. Davam indicações sobre a forma como o Estado devia emagrecer, desregular e se possível vender.

Ninguém ousou tocar nessas divindades domésticas, corruptas que se passeavam entre S. Bento e o Banco de Portugal, o Parlamento Europeu e as Instituições Internacionais. 

Hoje, sem dignidade, sem honra e sem carácter lá aparecem nas comissões de inquérito. Vitimas de uma amnésia selectiva, não respondem, fazem de conta, atiram para o vizinho do lado. E a nossa Republica observa, escuta e medita esta gente sem vergonha na cara. O Povo fica atónico com os comportamentos que passam nas aberturas dos telejornais.

Fica a ideia de que esta gente devia ser internada para tratamento psiquiátrico. Ou remetidos para uma qualquer prisão preventiva que lhes aviva-se a memória. O Estado não pode tolerar ser tratado desta forma tão vergonhosa por um grupo de delinquentes que roubaram, destruíram e desviaram milhares de milhões de euros.  

Assim, deixo aqui os sete pecados capitais.


1. A Luxúria: apego e valorização extrema aos prazeres carnais, à sensualidade e sexualidade; desrespeito aos costumes; lascívia.

2. Gula: comer somente por prazer, em quantidade superior àquela necessária para o corpo humano.

3. Avareza: apego ao dinheiro de forma exagerada, desejo de adquirir bens materiais e de acumular riquezas.

4. Ira: raiva contra alguém, vontade de vingança.

5. Soberba: manifestação de orgulho e arrogância.

6. Vaidade: preocupação excessiva com o aspecto físico para conquistar a admiração dos outros.

7. Preguiça: negligência ou falta de vontade para o trabalho ou actividades importantes.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Pecados Mortais



A vida partidária portuguesa encontra-se contaminada por um conjunto de pecados mortais, próprios de uma sociedade bruta e indigna, porque ausente dos valores humanistas e filantrópicos que estiveram na matriz cultural da Europa Moderna. Os partidos políticos desde cedo foram cedendo o espaço a uma tribo de jovens que ocuparam lugares e se promoveram a partir do interior das células de formação partidária. Com bandeiras, megafones, caravanas, musica e muito folclore a encher salas, praças e ruas os jovens militantes de emblema ao peito fizeram os seus roteiros que os haviam de conduzir aos lugares de cima da decisão política nacional.

As Juventudes Partidárias (JSD, JS, JC, JCP, etc) organizaram-se, estruturaram-se em função de lideres, de cenários eleitorais, de clientelas, de cliques e de interesses internos. Um mundo à medida dos seus interesses, onde a intriga, a exclusão, a erosão de ideias fez parte do seu imaginário. Os pequenos "jotas" copiavam os códigos, os discursos, os iaginários e o dress cod dos seus maiores que comandavam os destinos da Nação. 

Nada de relevante pensaram, idealizaram, organizaram e despoletaram. Tirando as ditas causas de fundo. Como por exemplo, o casamento gay, o serviço militar, e pouco mais. Não participaram com estudos e conhecimento que possibilitasse uma nova agenda politica. A não existência de gabinete de estudos, de jornadas e de centros de debate contribuíram para reduzir a sua acção a meia dúzia de participações na campanha do líder. Nada de sólido e estruturante fizeram a não ser lutar por um lugar de deputado e pelas secretarias da Juventude e dos ministérios. O ambiente foi uma causa digna mas nada sustentável. Esta gente sem grande qualidade e formação académica cedo abandonou o estudo e a formação académica para se dedicarem à burocracia da luta partidária.

Ao fim de quarenta anos. Os "Jotas" ocuparam os lugares principais do aparelho partidário, a partir daí foi um pulo para as chefias do Estado e da Europa. O aparelho do Estado começa a ser contaminado pela incompetência, pela intriga, pela mediocridade que nasce e se desenvolve no interior das células da juventude partidária. 

Organizam uma festa de vaidades com direito a noticia televisiva a que dão o nome pomposo de Universidade de Verão. Uma espécie de catequese para as massas internas de jovens que durante uns dias têm que aturar uns quantos doutores que debitam conhecimento a metro e algibeira. Os indígenas ouvem os professores martelos desta República e batem muitas, mesmo muitas palmas. No último dia lá aparece o líder do partido, ele também formado na "Jotinha" a falar como chegou ao Poder. E os "jotinhas" ficam a saber como se consegue lá chegar sem ideias, sem programas, sem relevância e sem desígnio algum. 

Os Partidos Políticos capturaram a sociedade civil, aprisionaram o cidadão numa espécie de jaula transparente e deslocaram a cidadania para uma espécie de limbo dos inocentes. É urgente devolver a cidadania aos cidadãos. É urgente libertar a politica dos aparelhos mafiosos dos partidos políticos que à margem da lei e da Constituição asfixiam lideranças emergentes que a sociedade promove e que o País tanto reivindica.

É um problema de ausência de liberdade, de democracia e  de participação activa que afecta o Estado Democrático e o impede de patrocinar alternativas inteligentes e humanistas.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

UMA NOVA REPUBLICA

As eleições na Grécia devolveram a política à Europa e colocaram os Estados-Nações perante a necessidade urgente de se repensarem fora da tecnocracia dos burocratas de Bruxelas. Aquilo que era inevitável e colocava a política e a sua acção refém de interesses singulares, foi de forma democrática derrotado por um povo que decidiu pensar, votar e mudar de política e de rumo.

A inevitabilidade dos negócios, dos juros, das taxas, da divida, do saldo e do défice foram recolocadas no seu lugar central - na decisão democrática do voto de um Povo que tem direito a decidir pelo seu destino. Sem ter  que recorrer aos providencialismos maniqueístas dos aparelhos corruptos dos partidos políticos que governam à direita nem-liberal e se afirmam como sociais democratas ou socialistas.

Em Portugal a democracia foi capturada pelo directório financeiro e partidário. O Presidente da República não cumpriu com a Constituição, e impediu que os portugueses decidissem sobre o seu futuro. Perante, tão pesado encargo fiscal, esmagando com impostos a classe operária, os camponeses, os pescadores, os mineiros e a classe média em geral, o Senhor Presidente da República estava mandatado pelo cumprimento constitucional a marcar eleições antecipadas. Não o fez, não cumpriu com o seu juramento à Constituição. Não acreditou no Povo português e na sua capacidade de encontrar as alternativas para o futuro da Nação. Um erro político. Um abuso de poder. Um crime contra a Constituição Portuguesa. Ele próprio não faz parte da solução e transformou-se num problema.

O PSD e o seu aparelho político vão sair deste cenário sem honra nem glória. Um PSD que poderá entrar em erosão eleitoral e de quadros. Um partido que enclausurado na sua clique mediocre e clientelar, o que de si já é um problema muito complexo. Tem agora, de lidar com a erosão eleitoral, com o descrédito de um governo incompetente, germanofilo, dependente e subordinado aos interesses do capital e das politicas alemãs.

Que ninguém acredite que o Povo português é manso e tanso, que gosta de levar com o pau. Não, nada disso, o Povo português tem o seu orgulho próprio, a sua identidade, a sua cultura e a sua afirmação no contexto das Nações. Quando lhe derem o poder do Voto, isto é, de decidir, ele decidirá com sabedoria, com elegância e com determinação. Somos um povo digno e orgulhoso da nossa cultura e da nossa história. Que ninguém pense o contrário. Estamos perante tempos de mudança, e Portugal mais uma vez estará na frente dessa mudança. Na construção de uma Europa Universalista e Cosmopolita. Uma Europa Aberta ao Mundo sem mimetismos nem providencialismos bacocos. 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Humanitas, Felicitas e Libertas



«Humanitas, Felicitas, Libertas  estas belas palavras que figuram nas moedas do meu reinado não fui eu que as inventei. Todo o filósofo grego, quase todos os romanos cultos traçam para si próprios a mesma imagem do mundo que eu. Perante uma lei injusta, por excessivamente rigorosa, ouvi Trajano exclamar que a sua execução não correspondia o espírito da época».
(...)
Assim, escreve Marguerite Yourcenar no livro Memórias de Adriano. Bem a propósito dos nossos tempos que perante as turbulências da mudança, opta pela racionalidade excessivamente burocrática da res publica.

Os sábios antigos ensinaram-nos a olhar para o teatro do mundo com a necessária prudência que o conhecimento nos confere. De forma a evitar os Invernos do espírito.

Adriano como visionário e governante prudente, tinha plena consciência da importância de um governo justo, tolerante e aberto ao conhecimento, único eio de possibilitar a felicidade e o progresso necessário aos povos e às regiões diferentes.

Hoje, as sociedades vivem fora deste quadro de valores, permitindo que a vassalagem e os arquétipos da dependência at homini sejam a regra principal deste jogo político. Abandonamos a procura da felicidade, perante um sentimento de resignação individual e colectiva. O silêncio, o medo, a banalidade e a indiferença  contaminam a sociedade e semeiam o ódio entre os povos, as comunidades, as raças e as religiões diferentes.

Os homens tornam-se indignos desta imensa herança greco-latina, que soube entender a felicidade como o bem supremo das civilizações ocidentais.
 Adriano fala através das palavras de  M. Youcenar afirmando:

«Devo confessar que acredito pouco nas leis. Demasiado duras, são transgredidas com razão. Demasiado complicadas, o engenho humano encontra facilmente maneira de se escapar por entre as malhas dessa massa monótona e frágil».

No fundo, os povos  não se podem refugiar na razão dogmática de uma Lei que nega a Humanidade, a Felicidade e a Liberdade.





terça-feira, 7 de outubro de 2014

O Reino da Estupidez


"És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração."

in Eça de Querós 





Este texto é uma espécie de homenagem a Jorge de Sena (1919-1978). Um autor um pouco esquecido e não muito divulgado entre a tribo nacional. Um homem com uma sensibilidade própria que soube captar de forma profunda a identidade do ser português no seu livro O Reino da Estupidez editado em 1961.

Nesta sua critica de tom amargo, desencantado, mordaz, de uma ironia triste e agressiva, o poeta ensaísta através do seu apurado sentido poético denuncia as estruturas negativas da nossa cultura: a intriga, a maledicência, a mediocridade de uma pseudo-intelectualidade. A vingança pequenina que se serve de forma cobarde contra aqueles que ousam defender ideias diferentes e acima de tudo pensam de forma bem diferente dos outros.

O poeta nunca aceitou o silêncio como forma resignada de uma "gentinha" cobarde que se amesquinha perante os autoritarismos fascistas daqueles que não conseguem viver numa espécie de dialéctica do confronto das ideias e dos princípios. A rotina cinzenta e doentia de uma gente que se arrasta pelos gabinetes de instituições sem alma e sem propósito. Jorge de Sena como Eça de Queirós no seu poema Portugal denuncia, critica, identifica e renega o mundo da mediocridade e da vingança nacionais. Bloqueios psicanalíticos de uma desejada e sempre amada modernidade que teima em não chegar a esta jangada de pedra que se fez um dia pátria, como diria Saramago.

Hoje, vive-se nesta realidade quase pornográfica, chocante porque ausente de ideias, de programas, de utopias. Num mundo cada vez mais cruel porque indiferente aos humanismos e à dialéctica, só a utilidade do cargo e a sua manutenção justificam esta banalidade e vazio.

A devastação das ideias e dos valores é uma realidade crescente em todas as Instituições, porque nela o humanismo e o pensamento livre são uma agressão ao dirigismo de grupos que se afirmam na perseguição e na intimidação. Perante a demolição dos valores e da ética, contextualizamos uma supra realidade que vive fora da Lei e da Praxis Democrática.

Esta realidade está bem presente na Escola Superior Artística do Porto, que dirigida e (des) governada por um grupo que faz da sua gestão uma praxis de confronto e de intimidação. O que se torna pouco digno, pois, estamos a falar de uma instituição que devia servir os valores da criação, da inovação e da critica e pensamentos livres.

Vive-se numa espécie de borbulha de interesses, de ambições, de perseguições que terá como remate final a destruição de uma instituição que devia servir o Humanismo e a Arte.



segunda-feira, 6 de outubro de 2014

ESAP - Uma espécie de canibalismo académico

A ESAP foi sempre uma espécie de micro sociedade académica à parte do mundo do ensino superior e universitário. Uma espécie de couto artístico que de forma autónoma lá ia gerindo como queria e podia as suas funções e as suas obrigações de ensino e formação artística.

O Estado sempre foi bondoso com esta forma de ministrar a arte em doses de anarquia, de experimentalismo e de diferença. Os outros olhavam para a ESAP com diferença e distanciamento, ou porque não entendiam a sua irracionalidade poética ou não se identificavam com esta forma de estar fora do sistema do ensino superior.

Durante décadas a ESAP viveu neste sistema entrópico, onde desaguavam todas as vontades, todas as sinergias e todas as loucuras. Uma Escola que vivia somente das propinas dos seus alunos era para muitos uma loucura que não garantia futuro nem sustentabilidade. Mas, assim, continuou sem preconceitos e sem racionalidade de gestão. Ignorando os relatórios do ministério e dos seus inspectores que iam anotando a sua irracionalidade e a sua insustentabilidade.

A teimosia em continuar nesta dependência directa dos ingressos dos alunos, associada a uma certa incompetência e resignação dos seus directores, conduziu a ESAP para uma situação de irracionalidade de gestão académica e abriu espaço para o afirmar de territorialidades agressivas, com a destituição e dispensa de colegas e a promoção de outros.

Estamos no reino das clientelas, dos caciquismos em torno da luta pelos monopólios internos. Cada um luta pela sua sobrevivência e pela sua afirmação dentro da instituição. Os departamentos e as cadeiras são uma espécie de territórios contaminados pelas redes de influência de grupos que se afirmam pela conservação e ampliação das suas influências resignadas a um mundo fechado entre paredes.

 A divisão é inevitável e a resignação também o é. O medo instala-se. O medo de perder a sua cadeira, o medo de mudar de ano, o medo de não ser reconduzido, o medo de perder o seu lugar na estrutura. Tudo se processa contra a pedagogia, contra a ciência acumulada, contra a formação sustentada e qualificada.

Os alunos sentem essa mudança e esse caos pedagógico e cientifico, com a mudança de professores que durante décadas formaram com qualidade e imprimiram a sua marca na sua cadeira. Esta situação não só coloca em causa a qualidade de ensino, como é inimiga de todo um património que faz parte da marca ESAP.

Assiste-se, a uma perda de diversidade e de qualidade de ensino com a saída de professores e a uma concentração de cadeiras e áreas cientificas numa só pessoa. Casos há de professores que ministram mais do que cinco cadeiras diferentes em anos diferentes. O que coloca em causa a diversidade e a especificidade da formação académica. Engana os formandos e desvirtua a natureza do ensino que assenta na complexidade e na heterogeneidade de saberes e competências dos seus mestres.

A ESAP que foi sempre uma Escola da diferença e da diversidade cientifica e cultural, transforma-se numa instituição monótona, redutora, fechada e conservadora.

Esta ESAP representa o anacronismo de si própria, porque se fez na diferença e na procura da vanguarda. O seu passado é a negação do seu presente.

Aqui, nada se conjuga com memória, identidade e património. Estamos perante uma espécie de neurose institucional, onde o ajuste de contas e a defesa de clientelas se sobrepôs ao futuro e à valorização criativa do seu passado.

A toda esta hiper realidade soma-se a perda de alunos, o fechar de cursos que nunca tiveram relevância e sustentabilidade financeira e cientifica, o vazio nas salas de aula, o desânimo dos alunos e dos professores, a angustia dos cooperantes nas Assembleias da CESAP cada vez menos participadas e ignoradas por quase todos. As conversas silenciosas dos funcionários perante a incerteza e o desvario.

As reuniões são muitas das vezes lugares de confronto entre grupos e clientelas, ajuste de contas pelas divergências de opções e de apoios. O ensino e a formação começam a passar à margem das lutas internas pelo poder e pela sobrevivência. É o fim de um sonho de utopias mobilizadoras que durante décadas formaram, informaram e deram origem a um programa de ensino da arquitectura com dimensão social, ecológica, antropológica e filosófica.