segunda-feira, 5 de outubro de 2015

POLITICA SOBRE UMA ESQUERDA RENASCIDA...



Image result for catarina martinsAs Eleições de 4 de Outubro de 2015 marcam uma nova fase da vida politica nacional e parlamentar. O Povo Português assim o desejou e assim aconteceu. PSD perde a sua maioria coisa nada difícil tendo em conta as circunstâncias socioeconómicas e políticas nacionais e internacionais.

O PS como seria de esperar foi castigado pelo seu passado e pelo seu presente. Foi sempre um partido tímido, recuado, entre as tábuas, sem capacidade de luta, de galvanizar os portugueses. O PS esteve sempre à defesa, porque não apresentou um programa fraturante e simbólico, que desse a entender ao eleitorado uma viragem para políticas mais sociais, mais socialistas e sociais democratas.

Pelo contrário, resguardou-se à espera que a crise, o desemprego, a miséria social  e o descontentamento dos lesados do BES, e de tantas outra corporações fossem fazendo o trabalho de critica e de oposição ao actual governo PSD/CDS. Esta postura de remar a favor da conjuntura deu espaço ao PSD/CDS para lançar uma campanha mais agressiva que conduziu a este resultado.
Coisa que seria de todo improvável!

O Bloco e o PCP fizeram o seu trabalho e apresentaram as suas propostas. De forma simples, directa no contacto com as pessoas nas ruas, nas praças e através dos debates realizados.

Devemos referenciar a postura e o resultado excelente do Bloco de Esquerda. Um resultado que lhe dá uma grande vitória e consequentemente uma grande responsabilidade.

O Bloco de Esquerda tem que continuar o seu caminho de consolidação de alternativa ao PS e ao PSD, como partido de governo. Um governo à esquerda e de esquerda. Sem radicalismos, sem frentismos, sem ideologismos anacrónicos.

Com isto não queremos dizer que o Bloco deva abandonar a sua identidade, a sua matriz politica e ideológica. Pelo contrário deve afirmar-se pelas suas politicas e pelos seus programas sem temer os fantasmas da governabilidade. Parece que quando os Partidos chegam ao Poder e ao Governo ficam sob o efeito de uma certa frustração psicanalítica que os impede de afirmar as suas identidades e genealogias politicas.

O Bloco tem que assumir o seu papel de partido de poder de forma a condicionar a agenda politica na Assembleia da República Portuguesa e na Europa.Se rodeios, sem zigue-zagues, sem complexos....O Bloco de Esquerda esta mandatado pelo povo português para transformar e implementar uma nova forma de fazer politica.

O Bloco de Esquerda tem que se abrir à sociedade, possibilitando a participação dos cidadãos na vida politica nacional e a partir daí organizar uma alternativa consequente para as próximas Eleições Autárquicas. Sem esquecer as próximas Eleições Presidenciais.

O Bloco de Esquerda tem que se reforçar e valorizar o seu eleitorado urbano. Com novas estratégias e novas personalidades que garantam o aprofundamento dos ideais da esquerda democrática.

É urgente resgatar a sociedade, a economia e a vida publica dos constrangimentos deste capitalismo neo-liberal que assaltou os Estados e os colocou numa situação de reféns dos capitalismos globalizados sem alma e sem respeito pelos valores humanos.

É urgente acabar com os velhos vicios dos partidos do chamado arco da governação. Que construiram clientelas mafiosas ao serviço de interesses que não os da república e do Bem Comum.

É urgente transformar esta vitória eleitoral num instrumento inteligente de partilha de poderes e de responsabilidades, sem alienar as vontades e as diferenças, mas levar até àqueles que estavam excluidos da participação política uma lufada de esperança e de oportunidades.

É urgente que esta esquerda renovada não se contente com o protestar e dê continuidade ao programa que Catarina Martins apresentou e discutiu durante a campanha de forma a devolver a Felicidade aos Portugueses.




sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A Dança das cadeiras em Baião

... de baião josé luís carneiro e paulo pereira procederam no dia

Estamos na presença do fim de um ciclo, ou melhor na mudança de cadeiras na continuidade do mesmo ciclo. Na realidade a saída do Dr José Luís Carneiro da Presidência da Câmara Municipal de Baião não coincide com a mudança de ciclo, nem com a viragem de políticas e de actores. Simplesmente, um dos actores, aliás o actor principal sai mas todos os outros actores continuam na estrutura camarária e política local. O que é normal e por isso nada de mal, nem nada a apontar de negativo.

O que é preocupante é a ausência de vida política neste concelho e vila por parte das outras forças políticas. Claro que me refiro ao PSD e ao CDS. O PCP é sem duvida o único partido que não tendo representação nos órgãos municipais (Assembleia e Vereação) tem tido uma postura de oposição construtiva e continua na defesa dos interesses do povo e da terra de Baião.

As outras forças políticas tendo representação nos órgãos locais não têm tido uma intervenção digna desse nome. Não se lhes reconhece um programa alternativo, uma ideia de mudança, uma postura de intervenção civica em prol de Baião e dos baionenses.

O PSD desde a Dr Emília Silva que abdicou de ser alternativa, de ser uma forma de mudança e de renovação política. Hoje, é um partido sem chama, sem liderança, sem ideias, sem militância que possa implementar uma alternativa sólida à actual governança local. O PSD perdeu a sua rede local, não tem influência na terra e nas instituições mais dinâmicas do concelho (educação, segurança social, trabalho, prevenção, cultura, etc.).

A liderança do Dr Sá Costa conduziu o PSD de Baião para uma situação de vazio político, de erosão de votos e de mandatos. Perdeu tudo que tinha a perder: vereadores, presidentes de junta, influência nas instituições sociais, culturais e educativas. Para não falar da destruição do PSD de Baião: sem militantes, sem militância, sem liderança, sem norte e sem consistência política e social. A liderança do PSD em vez de unir dividiu; em vez de adicionar subtraiu; em vez de se abrir à sociedade fechou-se no ciclo dos interesses e dos lobbies.

O PS consegue assim uma mudança de actores políticos sem trauma, sem conflitos, sem pânico nas suas estruturas. O Dr José Luís Carneiro tem esse mérito de ter governando o Concelho durante 10 anos, de forma absoluta, sem oposição, sem ter que dividir o seu poder com outras forças. Nesse contexto soube de forma inteligente passar o testemunho do poder. E dessa forma evitar o trauma da saída que conduz sempre a uma espécie de orfandade política nas lideranças.

Goste-se mais ou menos do Dr Paulo Pereira, na verdade ele trás essa tranquilidade de continuidade de mandato e de segurança na liderança futura. O PS não cai no vazio. Não permite lutas internas pela disputa de lugares. O PS já resolveu o seu problema.

Se o PSD actual estava à espera da saída do Dr José Luís Carneiro e com isso abrir um vazio de luta de lideranças no seio do PS de  Baião enganou-se redondamente. O PSD é vitima de si próprio. Sem património de oposição, porque na realidade a Dr Fátima Azevedo nunca o foi e nunca o será. E o Dr Sá Costa e seus companheiros são um exemplo de vaidade e de vazio político que espreitava uma oportunidade de fim de ciclo para se impor de forma quase natural à saída do Dr José Luís Carneiro.

Mais, uma vez o PSD perde uma oportunidade porque se posicionou de forma passiva, medíocre à espera que o fruto caia de maduro sem ter o trabalho de trepar a árvore.

O PS de Baião mostrou grande inteligência e saber pela forma como soube aproveitar a situação das eleições para a Assembleia da República de 2015; e desta forma resolve tranquilamente a passagem de testemunho.

O Dr Paulo Pereira tem assim dois anos pare se impor e para consolidar a sua liderança. O PSD se já estava moribundo com a derrota das últimas eleições fica agora sem possibilidade de continuar ligado à máquina / ventilador. O PSD é um partido desligado da realidade. Sem base social de apoio. Sem rede política nas juntas de freguesia. Sem personalidades relevantes na vida local, regional e nacional. Fica reduzido à sua própria insignificância, de um punhado de jovens sem norte e sem leme.Nem nas listas a deputados pelo PSD do Distrito do Porto consegue um lugar de prestigio.

Podemos concluir que o PSD continua com uma estratégia de aluno preguiçoso, malandrote, oportunista que espera que o adversário cai-a para ocupar a cadeira do poder. O PS não só não caiu como fortaleceu a sua posição e demonstrou sentido de responsabilidade em dizer aos baionenses que sabe programar e pensar o futuro.

Sem duvida alguma que se podem fazer muitas criticas a este mandato. Mas uma verdade evidente é que o PS de Baião soube reorganizar-se, renovar-se, consolidar-se e é sem duvida alguma a única força política com capacidade até ao momento para liderar o concelho de Baião.

O PSD perante estas mudanças perde em toda a linha e vê adiada a sua possibilidade de alcançar o poder e a governação do Conselho de Baião.

Mas, uma terra e um concelho como Baião podem viver sem oposição? Será benéfico para o PS governar sem oposição? Claro que não.

É urgente que o PCP venha a ocupar alguns lugares na próxima Assembleia Municipal e que os novos partidos se organizem e apresentem uma alternativa a esta falta de oposição em Baião. O PSD não existe e não tem espaço para ser poder.Com apenas um vereador que não se afirmou nem se diferenciou.

O que fazer ao PSD? Refundar a sua liderança? Repescar os psd`s que abandonaram o partido com a saída da Dr Emilia Silva? Encontrar outras figuras capazes de dotar o PSD de competência, de conhecimento, de dedicação à terra e ao seu povo?
Penso que será muito pouco provável. O PSD vai morrer assim. Melhor, vai continuar neste estado de coma profundo. Sem alma, sem vida, sem relevância...

Acreditemos na mobilização e na vitalidade da sociedade civil baionense. Na sua capacidade de renovar actores e ideias, na industria, na educação, na cultura, no trabalho, na protecção e segurança, na agricultura e ambiente.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Baião. Uma Terra, Um Santo, Uma Festa

A Vila de Baião em Festa. Festeja-se o padroeiro S. Bartolomeu.As ruas estão bonitas, preparadas a rigor como manda a tradição. A ornamentação recebe os forasteiros e os foliões a preceito. As tascas, os cafés, os restaurante apinham-se de homens, mulheres e crianças. O Café Guedes veste-se a rigor com o seu staff. Mulheres bonitas e modernas ocupam as mesas da esplanada, os doces apetitosos espreitam das vitrines. Gulosos esperam pelos pantagruélicos estômagos.As musicas das concertinas em bandos animam as ruas e as entradas dos cafés da Vila.

Bandos de foliões que sobem e descem a Vila numa romaria incessante. Por entre as ruas, as pessoas, falam, beijam-se, distribuem olhares e falares. São dali ou daqui. Unidos por um Santo, uma Terra e uma Festa.

As farturas também lá estão. O artesanato também. As bengalas de Gestaçô dão aquele ar queirosiano à festa. A modernidade aparece no interior de um cubo que dá pelo nome de Posto de Turismo com a arte moderna de dois artistas.

Estes dias são de abundância, de extravagância, de ruptura e de festança. Ninguém falta à festa do santo. Penso que o Santo não se importaria muito com isso. Mas as pessoas não lhe perdoavam essa ausência.

Os concertos para variados gostos. desde a musica mais pimba ao clássico. As tradicionais bandas do concelho. Que são antigas e nobres na arte de solfejar. A Banda de Ancede a rivalizar em despiques com as outras bandas da região.

Os homens bons com as suas ricas donas. Ocupam as cadeiras da frente. O Povo como manda a tradição faz o acompanhamento e o fecho da festa.

O Senhor Padre vestido a preceito também nunca falta. Do alto da sua toga ministra os santos oficios. Define a moral e a pastoral na terra. Do seu munus lá determina quem vai para os céus ou para os infernos.E lembra como S. Bartolomeu matou a besta com a sua espada.Esta luta eterna entre o bem e o mal.

Mas quando a festa se acaba. Os foliões regressam às suas casas, à sua vidinha e lá esperam pela próxima romaria. As ruas despedem-se. Ficam tristes e vazias. Os cafés lá voltam à sua monotonia. As luzes apagam-se e encerram-se os palcos.

Nem a politica parece animar a Terra. os actores são menores e irrelevantes. O Santo Bartolomeu é mais forte, milagreiro e em caso de desgraça o povo bem pode sempre contar com ele.Pagam a promessa e mandam os políticos à  fava.


sexta-feira, 10 de abril de 2015

O Homem de Cetim 1947




Estava-mos no ano de 1947.
Um homem vestido de cetim desfilava na praça da sua terra.
Um acontecimento... Pequeno acontecimento este que dava um colorido diferente em dias de feira. A praça era dominada por essa figura altiva que se passeava de cetim... Um pijama de cetim. Comprado pelo ouro da época – o vulfrâmio.
Era o tempo das notas gordas. Dos sacos pesados de vulfrâmio. Das viagens de taxi para a cidade do Porto. Das festas regadas a cântaro de vinho acompanhado com sopas e pão-de-ló. Das noites jogadas a cartas viciadas e fraudulentas. Das estórias de encantar e de meter medo. Era a época dos lobisomens, das bruxas que tomavam banho nos ribeiros e roubavam a honra a homens honrados. Das hospedarias apinhadas de forasteiros. De gentes muito ricas e muito pobres. De vendedores, de traficantes, de mulheres e crianças que corriam para o apanha. Dias de troca, dias de glória, dias de abundância, dias de desgraça e de miséria também. Como nos dizia o Zé Maria de Covelo de Paivó eram tempos do diabo.










O Pantagruel de Arouca



  Image result for doçaria conventual de arouca          A doçaria conventual de Arouca tem sido elemento constante da comensalidade e da mesa de muitas gerações de arouquenses, que na sua terra ou lá longe da terra, estabelecem uma ligação uterina com as sua origens. Os doces conventuais são presença indispensável nas cerimónias religiosas e nas festividades familiares, construindo em seu torno uma fina teia de ligações afectivas e culturais entre todos os arouquenses.
            A sua delicada apresentação, com formas geométricas mais ou menos puras, com  texturas fortes, a cor branca é dominadora na forma subtil como envolve conteúdos e segredos do seu fabrico artesanal. Uma verdadeira obra de arte, pintada a branco e amarelo. Quando apresentados em mesa são de uma beleza monumental. Associando três elementos fundamentais a pureza, a simplicidade, e o bom gosto.
            Toda a obra de arte tem um autor. A doçaria conventual de Arouca também é obra de autor. O seu nome é conhecido por todos aqueles que amam a arte e a beleza da mesa. Como todo o artista também o Manuel Bastos teve o seu mestre. Que lhe ensinou a pegar na massa com as mãos e a construir doces, doces conventuais segundo uma tradição que as mãos sábias de uma mulher do povo soube guardar e transmitir.
            Um homem de barbas pretas e fartas, de barriga bem feita, com mãos fortes e delicadas desenha obras de arte em açúcar, farinha e ovos. Sempre atento ao mundo, ao seu mundo – a sua terra. Com uma personalidade afavel, dialogante, mas crítica perante a vida e o mundo. Um verdadeiro filósofo da mesa na forma como trata o humano.
Uma arte efémera que estabelece relações analógicas com a biologia e a natureza. Estamos perante uma actividade artística de dimensão estética erudita, porque associa a simplicidade da forma estética à complexidade do seu fabrico artesanal. Uma arte de esculturas em miniatura, produto de uma tradição doçeira que mergulha nos grossos silêncios do passado histórico da vila monástica de Arouca. Uma arte de segredos e mistérios em função de um tempo mítico e fundador.     
           


Casa do Souto (Douro) aos 19 de Abril de 2004







quarta-feira, 11 de março de 2015

Os Sete Pecados Capitais



Os Sete Pecados Capitais foram definidos pela Igreja Católica, no final do século VI, durante o papado de Gregório Magno, num contexto de Reforma da Igreja Católica num período de grandes convulsões sociais, política e económicas. Com a Queda de Roma e o Fim do Império Romano, o ocidente cai numa espécie de vazio de poder político e religioso. Era urgente moralizar a vida social, refrear os apetites mais selvagens e imorais dos senhores e alcaides da época. 

Bem aproposito da forma forma como as nossas "elites" governam o nosso país e a forma como se comportam perante a coisa publica. O interesse público é saqueado por uma elite de ricos-homens que sem o mínimo de pudor usam a sua posição na gestão política para saquear os cofres do Estado em beneficio próprio.

Banqueiros, gestores, mediadores e directores que durante décadas desviaram, roubaram, capturaram os dinheiros públicos e privados em beneficio próprio e das suas cliques. Uma espécie de máfia financeira que abusou, criminalizou o sistema, destruiu a confiança entre os cidadãos e as instituições. 

Foram vaidosos, gananciosos,  criminosos, imprudentes e insensatos. Destruíram os pilares da confiança democrática em prol de interesses particulares e de grupos. Tiveram a cobertura do sistema, dos media, dos partidos políticos, das instituições internacionais não governamentais. Passearam-se pelos espaços do poder, foram membros de conselhos de Estado, davam e opinavam sobre como se devia governar o país. Com toda a desfaçatez propuseram nomes para governar este país. Davam indicações sobre a forma como o Estado devia emagrecer, desregular e se possível vender.

Ninguém ousou tocar nessas divindades domésticas, corruptas que se passeavam entre S. Bento e o Banco de Portugal, o Parlamento Europeu e as Instituições Internacionais. 

Hoje, sem dignidade, sem honra e sem carácter lá aparecem nas comissões de inquérito. Vitimas de uma amnésia selectiva, não respondem, fazem de conta, atiram para o vizinho do lado. E a nossa Republica observa, escuta e medita esta gente sem vergonha na cara. O Povo fica atónico com os comportamentos que passam nas aberturas dos telejornais.

Fica a ideia de que esta gente devia ser internada para tratamento psiquiátrico. Ou remetidos para uma qualquer prisão preventiva que lhes aviva-se a memória. O Estado não pode tolerar ser tratado desta forma tão vergonhosa por um grupo de delinquentes que roubaram, destruíram e desviaram milhares de milhões de euros.  

Assim, deixo aqui os sete pecados capitais.


1. A Luxúria: apego e valorização extrema aos prazeres carnais, à sensualidade e sexualidade; desrespeito aos costumes; lascívia.

2. Gula: comer somente por prazer, em quantidade superior àquela necessária para o corpo humano.

3. Avareza: apego ao dinheiro de forma exagerada, desejo de adquirir bens materiais e de acumular riquezas.

4. Ira: raiva contra alguém, vontade de vingança.

5. Soberba: manifestação de orgulho e arrogância.

6. Vaidade: preocupação excessiva com o aspecto físico para conquistar a admiração dos outros.

7. Preguiça: negligência ou falta de vontade para o trabalho ou actividades importantes.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Pecados Mortais



A vida partidária portuguesa encontra-se contaminada por um conjunto de pecados mortais, próprios de uma sociedade bruta e indigna, porque ausente dos valores humanistas e filantrópicos que estiveram na matriz cultural da Europa Moderna. Os partidos políticos desde cedo foram cedendo o espaço a uma tribo de jovens que ocuparam lugares e se promoveram a partir do interior das células de formação partidária. Com bandeiras, megafones, caravanas, musica e muito folclore a encher salas, praças e ruas os jovens militantes de emblema ao peito fizeram os seus roteiros que os haviam de conduzir aos lugares de cima da decisão política nacional.

As Juventudes Partidárias (JSD, JS, JC, JCP, etc) organizaram-se, estruturaram-se em função de lideres, de cenários eleitorais, de clientelas, de cliques e de interesses internos. Um mundo à medida dos seus interesses, onde a intriga, a exclusão, a erosão de ideias fez parte do seu imaginário. Os pequenos "jotas" copiavam os códigos, os discursos, os iaginários e o dress cod dos seus maiores que comandavam os destinos da Nação. 

Nada de relevante pensaram, idealizaram, organizaram e despoletaram. Tirando as ditas causas de fundo. Como por exemplo, o casamento gay, o serviço militar, e pouco mais. Não participaram com estudos e conhecimento que possibilitasse uma nova agenda politica. A não existência de gabinete de estudos, de jornadas e de centros de debate contribuíram para reduzir a sua acção a meia dúzia de participações na campanha do líder. Nada de sólido e estruturante fizeram a não ser lutar por um lugar de deputado e pelas secretarias da Juventude e dos ministérios. O ambiente foi uma causa digna mas nada sustentável. Esta gente sem grande qualidade e formação académica cedo abandonou o estudo e a formação académica para se dedicarem à burocracia da luta partidária.

Ao fim de quarenta anos. Os "Jotas" ocuparam os lugares principais do aparelho partidário, a partir daí foi um pulo para as chefias do Estado e da Europa. O aparelho do Estado começa a ser contaminado pela incompetência, pela intriga, pela mediocridade que nasce e se desenvolve no interior das células da juventude partidária. 

Organizam uma festa de vaidades com direito a noticia televisiva a que dão o nome pomposo de Universidade de Verão. Uma espécie de catequese para as massas internas de jovens que durante uns dias têm que aturar uns quantos doutores que debitam conhecimento a metro e algibeira. Os indígenas ouvem os professores martelos desta República e batem muitas, mesmo muitas palmas. No último dia lá aparece o líder do partido, ele também formado na "Jotinha" a falar como chegou ao Poder. E os "jotinhas" ficam a saber como se consegue lá chegar sem ideias, sem programas, sem relevância e sem desígnio algum. 

Os Partidos Políticos capturaram a sociedade civil, aprisionaram o cidadão numa espécie de jaula transparente e deslocaram a cidadania para uma espécie de limbo dos inocentes. É urgente devolver a cidadania aos cidadãos. É urgente libertar a politica dos aparelhos mafiosos dos partidos políticos que à margem da lei e da Constituição asfixiam lideranças emergentes que a sociedade promove e que o País tanto reivindica.

É um problema de ausência de liberdade, de democracia e  de participação activa que afecta o Estado Democrático e o impede de patrocinar alternativas inteligentes e humanistas.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

UMA NOVA REPUBLICA

As eleições na Grécia devolveram a política à Europa e colocaram os Estados-Nações perante a necessidade urgente de se repensarem fora da tecnocracia dos burocratas de Bruxelas. Aquilo que era inevitável e colocava a política e a sua acção refém de interesses singulares, foi de forma democrática derrotado por um povo que decidiu pensar, votar e mudar de política e de rumo.

A inevitabilidade dos negócios, dos juros, das taxas, da divida, do saldo e do défice foram recolocadas no seu lugar central - na decisão democrática do voto de um Povo que tem direito a decidir pelo seu destino. Sem ter  que recorrer aos providencialismos maniqueístas dos aparelhos corruptos dos partidos políticos que governam à direita nem-liberal e se afirmam como sociais democratas ou socialistas.

Em Portugal a democracia foi capturada pelo directório financeiro e partidário. O Presidente da República não cumpriu com a Constituição, e impediu que os portugueses decidissem sobre o seu futuro. Perante, tão pesado encargo fiscal, esmagando com impostos a classe operária, os camponeses, os pescadores, os mineiros e a classe média em geral, o Senhor Presidente da República estava mandatado pelo cumprimento constitucional a marcar eleições antecipadas. Não o fez, não cumpriu com o seu juramento à Constituição. Não acreditou no Povo português e na sua capacidade de encontrar as alternativas para o futuro da Nação. Um erro político. Um abuso de poder. Um crime contra a Constituição Portuguesa. Ele próprio não faz parte da solução e transformou-se num problema.

O PSD e o seu aparelho político vão sair deste cenário sem honra nem glória. Um PSD que poderá entrar em erosão eleitoral e de quadros. Um partido que enclausurado na sua clique mediocre e clientelar, o que de si já é um problema muito complexo. Tem agora, de lidar com a erosão eleitoral, com o descrédito de um governo incompetente, germanofilo, dependente e subordinado aos interesses do capital e das politicas alemãs.

Que ninguém acredite que o Povo português é manso e tanso, que gosta de levar com o pau. Não, nada disso, o Povo português tem o seu orgulho próprio, a sua identidade, a sua cultura e a sua afirmação no contexto das Nações. Quando lhe derem o poder do Voto, isto é, de decidir, ele decidirá com sabedoria, com elegância e com determinação. Somos um povo digno e orgulhoso da nossa cultura e da nossa história. Que ninguém pense o contrário. Estamos perante tempos de mudança, e Portugal mais uma vez estará na frente dessa mudança. Na construção de uma Europa Universalista e Cosmopolita. Uma Europa Aberta ao Mundo sem mimetismos nem providencialismos bacocos. 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Humanitas, Felicitas e Libertas



«Humanitas, Felicitas, Libertas  estas belas palavras que figuram nas moedas do meu reinado não fui eu que as inventei. Todo o filósofo grego, quase todos os romanos cultos traçam para si próprios a mesma imagem do mundo que eu. Perante uma lei injusta, por excessivamente rigorosa, ouvi Trajano exclamar que a sua execução não correspondia o espírito da época».
(...)
Assim, escreve Marguerite Yourcenar no livro Memórias de Adriano. Bem a propósito dos nossos tempos que perante as turbulências da mudança, opta pela racionalidade excessivamente burocrática da res publica.

Os sábios antigos ensinaram-nos a olhar para o teatro do mundo com a necessária prudência que o conhecimento nos confere. De forma a evitar os Invernos do espírito.

Adriano como visionário e governante prudente, tinha plena consciência da importância de um governo justo, tolerante e aberto ao conhecimento, único eio de possibilitar a felicidade e o progresso necessário aos povos e às regiões diferentes.

Hoje, as sociedades vivem fora deste quadro de valores, permitindo que a vassalagem e os arquétipos da dependência at homini sejam a regra principal deste jogo político. Abandonamos a procura da felicidade, perante um sentimento de resignação individual e colectiva. O silêncio, o medo, a banalidade e a indiferença  contaminam a sociedade e semeiam o ódio entre os povos, as comunidades, as raças e as religiões diferentes.

Os homens tornam-se indignos desta imensa herança greco-latina, que soube entender a felicidade como o bem supremo das civilizações ocidentais.
 Adriano fala através das palavras de  M. Youcenar afirmando:

«Devo confessar que acredito pouco nas leis. Demasiado duras, são transgredidas com razão. Demasiado complicadas, o engenho humano encontra facilmente maneira de se escapar por entre as malhas dessa massa monótona e frágil».

No fundo, os povos  não se podem refugiar na razão dogmática de uma Lei que nega a Humanidade, a Felicidade e a Liberdade.





terça-feira, 7 de outubro de 2014

O Reino da Estupidez


"És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração."

in Eça de Querós 





Este texto é uma espécie de homenagem a Jorge de Sena (1919-1978). Um autor um pouco esquecido e não muito divulgado entre a tribo nacional. Um homem com uma sensibilidade própria que soube captar de forma profunda a identidade do ser português no seu livro O Reino da Estupidez editado em 1961.

Nesta sua critica de tom amargo, desencantado, mordaz, de uma ironia triste e agressiva, o poeta ensaísta através do seu apurado sentido poético denuncia as estruturas negativas da nossa cultura: a intriga, a maledicência, a mediocridade de uma pseudo-intelectualidade. A vingança pequenina que se serve de forma cobarde contra aqueles que ousam defender ideias diferentes e acima de tudo pensam de forma bem diferente dos outros.

O poeta nunca aceitou o silêncio como forma resignada de uma "gentinha" cobarde que se amesquinha perante os autoritarismos fascistas daqueles que não conseguem viver numa espécie de dialéctica do confronto das ideias e dos princípios. A rotina cinzenta e doentia de uma gente que se arrasta pelos gabinetes de instituições sem alma e sem propósito. Jorge de Sena como Eça de Queirós no seu poema Portugal denuncia, critica, identifica e renega o mundo da mediocridade e da vingança nacionais. Bloqueios psicanalíticos de uma desejada e sempre amada modernidade que teima em não chegar a esta jangada de pedra que se fez um dia pátria, como diria Saramago.

Hoje, vive-se nesta realidade quase pornográfica, chocante porque ausente de ideias, de programas, de utopias. Num mundo cada vez mais cruel porque indiferente aos humanismos e à dialéctica, só a utilidade do cargo e a sua manutenção justificam esta banalidade e vazio.

A devastação das ideias e dos valores é uma realidade crescente em todas as Instituições, porque nela o humanismo e o pensamento livre são uma agressão ao dirigismo de grupos que se afirmam na perseguição e na intimidação. Perante a demolição dos valores e da ética, contextualizamos uma supra realidade que vive fora da Lei e da Praxis Democrática.

Esta realidade está bem presente na Escola Superior Artística do Porto, que dirigida e (des) governada por um grupo que faz da sua gestão uma praxis de confronto e de intimidação. O que se torna pouco digno, pois, estamos a falar de uma instituição que devia servir os valores da criação, da inovação e da critica e pensamentos livres.

Vive-se numa espécie de borbulha de interesses, de ambições, de perseguições que terá como remate final a destruição de uma instituição que devia servir o Humanismo e a Arte.



segunda-feira, 6 de outubro de 2014

ESAP - Uma espécie de canibalismo académico

A ESAP foi sempre uma espécie de micro sociedade académica à parte do mundo do ensino superior e universitário. Uma espécie de couto artístico que de forma autónoma lá ia gerindo como queria e podia as suas funções e as suas obrigações de ensino e formação artística.

O Estado sempre foi bondoso com esta forma de ministrar a arte em doses de anarquia, de experimentalismo e de diferença. Os outros olhavam para a ESAP com diferença e distanciamento, ou porque não entendiam a sua irracionalidade poética ou não se identificavam com esta forma de estar fora do sistema do ensino superior.

Durante décadas a ESAP viveu neste sistema entrópico, onde desaguavam todas as vontades, todas as sinergias e todas as loucuras. Uma Escola que vivia somente das propinas dos seus alunos era para muitos uma loucura que não garantia futuro nem sustentabilidade. Mas, assim, continuou sem preconceitos e sem racionalidade de gestão. Ignorando os relatórios do ministério e dos seus inspectores que iam anotando a sua irracionalidade e a sua insustentabilidade.

A teimosia em continuar nesta dependência directa dos ingressos dos alunos, associada a uma certa incompetência e resignação dos seus directores, conduziu a ESAP para uma situação de irracionalidade de gestão académica e abriu espaço para o afirmar de territorialidades agressivas, com a destituição e dispensa de colegas e a promoção de outros.

Estamos no reino das clientelas, dos caciquismos em torno da luta pelos monopólios internos. Cada um luta pela sua sobrevivência e pela sua afirmação dentro da instituição. Os departamentos e as cadeiras são uma espécie de territórios contaminados pelas redes de influência de grupos que se afirmam pela conservação e ampliação das suas influências resignadas a um mundo fechado entre paredes.

 A divisão é inevitável e a resignação também o é. O medo instala-se. O medo de perder a sua cadeira, o medo de mudar de ano, o medo de não ser reconduzido, o medo de perder o seu lugar na estrutura. Tudo se processa contra a pedagogia, contra a ciência acumulada, contra a formação sustentada e qualificada.

Os alunos sentem essa mudança e esse caos pedagógico e cientifico, com a mudança de professores que durante décadas formaram com qualidade e imprimiram a sua marca na sua cadeira. Esta situação não só coloca em causa a qualidade de ensino, como é inimiga de todo um património que faz parte da marca ESAP.

Assiste-se, a uma perda de diversidade e de qualidade de ensino com a saída de professores e a uma concentração de cadeiras e áreas cientificas numa só pessoa. Casos há de professores que ministram mais do que cinco cadeiras diferentes em anos diferentes. O que coloca em causa a diversidade e a especificidade da formação académica. Engana os formandos e desvirtua a natureza do ensino que assenta na complexidade e na heterogeneidade de saberes e competências dos seus mestres.

A ESAP que foi sempre uma Escola da diferença e da diversidade cientifica e cultural, transforma-se numa instituição monótona, redutora, fechada e conservadora.

Esta ESAP representa o anacronismo de si própria, porque se fez na diferença e na procura da vanguarda. O seu passado é a negação do seu presente.

Aqui, nada se conjuga com memória, identidade e património. Estamos perante uma espécie de neurose institucional, onde o ajuste de contas e a defesa de clientelas se sobrepôs ao futuro e à valorização criativa do seu passado.

A toda esta hiper realidade soma-se a perda de alunos, o fechar de cursos que nunca tiveram relevância e sustentabilidade financeira e cientifica, o vazio nas salas de aula, o desânimo dos alunos e dos professores, a angustia dos cooperantes nas Assembleias da CESAP cada vez menos participadas e ignoradas por quase todos. As conversas silenciosas dos funcionários perante a incerteza e o desvario.

As reuniões são muitas das vezes lugares de confronto entre grupos e clientelas, ajuste de contas pelas divergências de opções e de apoios. O ensino e a formação começam a passar à margem das lutas internas pelo poder e pela sobrevivência. É o fim de um sonho de utopias mobilizadoras que durante décadas formaram, informaram e deram origem a um programa de ensino da arquitectura com dimensão social, ecológica, antropológica e filosófica.







terça-feira, 23 de setembro de 2014

O Largo de S. Domingos

O Largo de S. Domingos fica no coração da cidade antiga do Porto. Um pedaço de cidade, aberto, inclinado, mal arrumado entre a Ruas das Flores, a  Rua de Belomonte e a Rua Nova de S. João. Este largo confere a esta zona da cidade uma espécie de lugar aberto e contido entre as fachadas imponentes de alguns dos edifícios que por ali foram construidos ao longo dos últimos séculos.

Uma arquitectura de fachadas imponentes, de aberturas almadinas, onde a madeira e o ferro lhes conferem uma estética e uma plasticidade singulares.

O largo é contido e desenhado de forma emotiva, sem os rigores da geometria dos tempos modernos. Encaixado entre os espaços das ruas que por ali desaguam é sem duvida um lugar de parar, de olhar e de contemplar. Um lugar de fazer negócios, encontros e desencontros. Um espaço de passagem mas também de ancoragem.

Em toda a sua configuração o Largo de S. Domingos tem agarrado a si lojas de comércio tradicional, tascas antigas como a dos Irmãos Linos, a Papelaria Araujo & Sobrinho, lojas de retalho e de vinhos do Porto. Um espaço de grande diversidade económica e social, de grande complexidade cultural. Mas a ruína e o vazio também já cá fizeram a sua morada e ainda persistem as memórias desse registo. São casas abandonadas, ruínas de palácios, de casas burguesas, fachadas em estado de ruína permanente.

Mas o antigo Largo de S. Domingos parece estar destinado a grandes transformações. Nunca foi um espaço da cidade bem arrumado e bem fechado em termos de planta urbana na cidade velha. Por isso, passou ao longo da sua longa existência por variadíssimas transformações morfológicas e tipológicas. Traçados e ângulos que se transformaram, arquitecturas que desapareceram e outras novas que aí foram plantadas sem pudor e sem amor à memória e ao sitio.

Este largo permite-nos compreender a matriz do palimpsesto de que é feito a nossa cidade. Entre movimentos de resistência e de transformação, a cidade é evolutiva e histórica. E nela tudo é momento, narrativa e discurso em processo de mudança histórica. A arqueologia é um acidente e uma apoteose neurótica da memória que se quer colectiva e identificativa de um passado onírico e glorioso.

Hoje. O Largo de S. Domingos lá está mal arrumado, de geometrias esquinadas, a colocar a cabeça dos arquitectos e urbanistas em rodopio. Bem isto a propósito do programa de reabilitação das ruas das Flores e do Largo de S. Domingos.

Um espaço inclinado, sem complexidade, sem heterotopia e sem desenho. Monótono, cinzento a doer cá por dentro. Um hino ao vazio pós-moderno, globalizado nos tiques e nos toques, sem identidade simbólica e cultural. Uma espécie de terra de ninguém ao serviço do mercado turístico global e massificado.


sábado, 9 de agosto de 2014

CESAP - Contas à Moda do Porto!

Brevemente neste blog, uma nota critica sobre as contas da nossa CESAP. E posteriormente um paper sobre a forma como se deve re-estruturar a CESAP e consequências na ESAP (Porto e Guimarães).

quinta-feira, 31 de julho de 2014

CESAP/ESAP - O Fim de Um Sonho!

 


Os tempos que vivemos não são fáceis nem são para fazer de conta. Perante as dificuldades que o país atravessa é sem duvida necessário uma atitude criativa, inteligente, responsável e critica. De forma a compreender as dificuldades e a pensar soluções eficientes e sustentáveis.

Bem aproposito esta nossa análise sobre o difícil momento que passa a CESAP/ESAP Porto e Guimarães. Parece-nos constatar que existe uma espécie de fechamento burocrático na instituição que impede a possibilidade de implementar medidas, programas e estratégias para resolver este problema de financiamento e de falta de liquidez para assumir responsabilidades futuras.

É nossa opinião que a situação não é alheia ao contexto de crise económica e social que o país atravessa, mas também não podemos ignorar que a CESAP e as suas Escolas (Porto e Guimarães) nada ou muito pouco fizeram para ultrapassar os obstáculos que vão aparecendo. Se alguns dos problemas são conjunturais, outros são muito mais graves, porque estão associados a problemas estruturais que a instituição nunca resolveu, porque não encontrou as soluções ideais ou porque a agenda interna era mais do domínio dos interesses de grupos, que sendo efémeros se transformaram numa espécie de estrangulamento ao seu desenvolvimento e consolidação.

Ao longo dos anos da sua existência a CESAP foi sendo uma estrutura leve, eficiente e de custos muito reduzidos, com capacidade para dar resposta às suas responsabilidades em relação às suas Escolas. Especialmente, em relação à Escola Superior Artística do Porto, que sem dúvida alguma, durante décadas prestou um serviço de qualidade na área da formação da arquitectura que lhe fez ganhar uma dimensão para além das nossas fronteiras. Os nossos alunos sempre foram bem acolhidos dentro e fora do país, em consequência do trabalho realizado na nossa Escola.

Paradoxalmente, o Curso de Arquitectura lá foi sempre funcionando, onde professores desenvolviam sem duvida alguma, um trabalho de grande dedicação ao ensino, aos alunos, à formação no âmbito da arquitectura. Noventa por cento dos docentes não tinha um vencimento de professor integral, porque a CESAP não tinha e continua a não ter condições financeiras para integrar esses docentes e dessa forma fazer face a todas as obrigações legais, subsidio de férias, segurança social, etc...etc. Todavia, os docentes que também são cooperantes, davam o seu melhor no ensino, na formação humana e profissional, custeando viagens e saídas de campo, sem meios ou verbas para o efeito. Era uma comunidade, ou melhor uma fraternidade de partilha entre alunos e professores, entre a Escola de Arquitectura e o contexto nacional e internacional.

Aulas abertas, visitas de estudo, visitas a obras, seminários, conferencias, congressos, mesas redondas, tudo se fazia a custo zero, sem grandes meios, mas o importante era a amizade, o companheirismo entre todos, fossem alunos, docentes e profissionais desta ou de outra área. Era um mundo aberto e plural. Era assim a ESAP-Curso de Arquitectura.

 Peço desculpa, se não me refiro aos outros cursos da ESAP, mas como não conheço a sua realidade não me posso pronunciar.

Esta realidade não era um mar de rosas, também existiam divisões, conflitos, outros interesses, que entre si partilhavam os cargos directivos. O Curso de Arquitectura foi durante anos um corpo com coesão e com liderança forte; contudo, a divisão e a fragmentação chegou ao curso da pior forma e no momento menos apropriado. Em plena crise aparece a divisão, a fragmentação, a saída do seu director carismático, e a diminuição de alunos que conduz à saída forçada de colegas de longa data.  Aparece a insatisfação, a duvida, a incerteza, a desconfiança, a frustração de muitos colegas que durante décadas de serviço dedicado à instituição são dispensados sem critério e sem fundamento.

Pela primeira vez, a ESAP no curso de Arquitectura perde diversidade científica e técnica, e perde qualidade formativa, em beneficio da burocratização académica que asfixia a criatividade, a diversidade de ensino, a qualidade formativa. Numa Escola de pequena escala, onde a informalidade e a proximidade faziam marca de diferenciação e de qualificação numa oferta cada vez mais standard e redutora. A ESAP no Curso de Arquitectura marcava a diferença e afirmava outro caminho na formação da arquitectura Europeia e Nacional. O Curso de Arquitectura era sem dúvida uma oferta alternativa e de qualidade.

Com a saída do antigo director, com a burocratização académica, com a uniformidade de curricula, com a destruição de cadeiras que faziam do nosso curso uma alternativa de vanguarda, em relação às outras ofertas; transformamos a diversidade e a singularidade no uniforme e no mesmo produto. Fomos copiar os outros naquilo que eles tinham e têm de menos válido para a formação de um arquitecto. Destruímos cadeiras e anexamos outras que colocam em causa a nossa identidade e a nossa razão de ser....

No meio deste cenário de decisões caóticas e inoportunas, aparece também a crise financeira, a escassez de liquidez, a incerteza de sustentabilidade na ESAP /CESAP.

Esta crise não se explica só pelo contexto da crise financeira e social que o país atravessa, mas também pela ausência de um programa estratégico de sustentabilidade financeira por parte da CESAP, que não soube ou não teve capacidade para o implementar. A direcção da CESAP deixou-se ultrapassar pelos acontecimentos, perdeu a noção de oportunidade, fechou-se numa espécie de torre de marfim quando se devia abrir à discussão como forma de arregimentar ideias, vontades e sinergias criativas.
A CESAP, hoje, é uma instituição sem ideias, sem energia, sem plano e sem estratégia capaz de resolver os problemas muito graves de financiamento que afectam a ESAP.

A ESAP e os seus órgãos académicos também não estão ausentes de culpas neste processo. Os órgãos académicos estão isolados da realidade, estão burocratizados, atomizados e sem capacidade de reagir de forma a implementar as medidas e as reformas necessárias. Durante mais de uma década com a absoluta cobertura dos órgãos académicos abriram-se cursos sem alunos e sem financiamento ajustado. Que consumiram milhares e milhares de euros.

A Direcção Académica e respectivos órgãos assistem à destruição da Escola sem capacidade de reacção, sem implementar uma reforma profunda, sem uma discussão eficaz e mobilizadora da sua comunidade escolar. A ESAP,  é um corpo vazio, triste, sem dinâmica, sem sinergias, sem esperança. Entrar naquele edifício central dá uma sensação de angústia e de frustração.

 As salas vazias, os edifícios vazios, os professores sem alunos, perante um aparelho burocrático tão complexo e em número tão elevado. Que imagem tão paradoxal é esta. Para nossa frustração temos as esplanadas no largo de S. Domingos cheias de turistas, mas onde param os nossos alunos. Os nossos alunos que durante décadas deram vida e alma, ao largo, aos cafés e tascas; que se sentavam nas soleiras e discutiam durante longas horas nas esquinas do Largo de S. Domingos.
Onde param os nossos alunos?!...Que deram colorido às ruas com os seus desenhos, os seus esquiços, com os seus olhares atentos a todo aquele patrimonio que nos entra pelos pelos sentidos.

Nota: No próximo paper uma análise cuidada da realidade financeira da CESAP/ESAP Porto e Guimarães.









sexta-feira, 13 de junho de 2014

Casas para Residentes

A questão da habitação na cidade do Porto, na AMP deve ser enquadrada numa nova classificação do que é o problema da habitação no contexto dos problemas da crise actual, sem negligenciar e ignorar as políticas que se foram aplicando na resolução da habitação para todos.

O problema da habitação necessita de um novo enquadramento teórico e conceptual, como de um programa de políticas de habitação que se liberte das políticas essencialmente essencialistas e de resposta aos insolventes do mercado habitacional.

Consideramos urgente reformular a focagem das teorias e conceitos, alargando a resposta a todos aqueles que não sendo insolventes não estão em condições de assumir com segurança um contrato de arrendamento do mercado livre.

A habitação básica permite desmistificar o conceito de habitação social com toda a carga negativa, assistencialista que ela comporta. É urgente retirar a habitação deste "pecado" que estigmatiza, exclui e marginaliza em guetos as famílias em blocos densificados à margem da cidade.

É urgente elaborar um Novo Programa de Políticas de Habitação que seja capaz de colocar no mercado de arrendamento ou de venda, casas de tipologia básica, a preços controlados a que todos aqueles que se encontram fora da habitação social e da habitação do mercado livre e especulativo, possam ter direito a uma habitação digna e qualificada sem estigma nem deslocalizada do direito à cidade.

Em causa está a forma como poderemos distribuir o acesso ao solo urbano pelas familias que se encontram numa espécie de mix social e económico, isto é, ganham demais para ter acesso a uma habitação social e por outro lado, não têm os meios suficientes para encontrar no mercado livre a resposta á sua necessidade básica - o direito a uma casa.

É neste enquadramento politico, social e cientifico-técnico que teremos de apresentar soluções e alternativas.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O Renascer da Democracia

Em toda a Europa aparecem movimentos civicos, alternativos e forças na defesa dos valores democráticos. Reivindica-se liberdade de decisão. Liberdade de escolha política. Exige-se que os partidos que sustentam os governos liberais mudem de políticas e abram as portas à cidadania.

Nas praças, nas ruas, nas escolas, nas fábricas luta-se minuto a minuto, hora a hora, dia a dia pela Democracia e pela Liberdade.

Nas urnas mostra-se o cartão vermelho a estas políticas que assassinam o trabalho e a economia produtiva, em prol da especulação financeira e de capitais. Luta-se contra a destruição de trabalho e contra a deslocalização das industria e do trabalho.

Nas Praças das capitais da Europa e do Mundo jovens, mulheres e homens lutam pela reposição dos direitos democráticos na vida das sociedades europeias. A sociedade condena de forma brutal todo o tipo de violência e de autoritarismo burocrático contra os cidadãos.

A informação colabora para esta globalização democrática e para esta onda de solidariedade entre os povos, as culturas oprimidas, as minorias e as maiorias escravizadas pela ordem neo-liberal.

Perante um sofisticado aparelho de propaganda e de terror suave instalado nos Estados Ocidentais as sociedades estão a dar uma resposta consciente, determinada e musculada. Não se aceita esta nova agenda liberal de destruição do Estado Democrático do Bem-Estar Social.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

As narrativas de Cavaco...



A queda do Presidente da República é um sinal dos tempos. Tempos que já foram de exaltação e de celebração da pátria de Camões. De festas gordas e apinhadas de gentes com bandeirinhas, lenços e chapeladas. Com discursos longos, simpáticos e proféticos a um povo alienado pelas narrativas ficcionais de uma Europa para todos.

Pregava-se o pão nosso de uma Europa rica, desenvolvida, solidária e progressista. Inventavam-se programas numa espécie de catecismo em prol de uma Europa unida e forte. Tratados e mais tratados, compromissos e mais compromissos. Quadros de referencia estratégica para aproximar os fracos dos mais fortes. Os ricos davam aos pobres e os pobres recebiam dos ricos. Tudo corria bem na eurolândia dos burocratas e dos demagogos.

Inventava-se o discurso da subsidiariedade europeia, do multiculturalismo, da herança europeia muito antiga e bem definida. Jacques Le Goff, o historiador francês da escola dos annalles inventava uma nova história para esta Europa mítica e fundacional, católica, protestante,judaica e muçulmana.

Era tudo tão perfeito. Criamos um parlamento europeu a fazer de conta. Um governo a fazer de conta. Um banco europeu a fazer de conta. Uma moeda a fazer de conta. Toda a gente acreditava na narrativa. Em Portugal os lideres políticos lá iam vendendo aos indígenas da nação o pacote de uma Europa Unida e Solidária. Despejaram-se toneladas de dinheiro que vinha dos nossos parentes ricos. Tínhamos descoberto de novo a "nossa" árvore das patacas. O nosso brasil era primeira vez aqui ao lado.

Tudo tão perfeito. Abi Feijó no seu "Fado Lusitano" levanta duvidas a esta narrativa. E chama-lhe loucura insana e ingénua. Manuel de Oliveira com "NON" leva-nos para os nossos palácios da psique colectiva. E deixa-nos irritados. Deixamos de pensar. Eduardo Lourenço na sua linguagem de uma identidade cultural europeia lá dá o fermento ideológico e estético a uma Europa que ele quer socialista e cosmopolita.

Inventamos o Homem do Leme. E o Homem do Leme inventou o "novo português". Construímos auto-estradas dando-lhes o nome de IPs e ICs por onde circulavam carros e carrões. Abandonamos a pesca e a agricultura, sinais de um país atrasado e anti-europeu. Mandamos queimar olivais e pomares, barcos e conserveiras, deslocamos os pescadores das frentes de praia para aí instalar unidades turísticas para os povos ricos do Norte e para os "Novos Portugueses" que Cavaco ajudou a criar.

Ser político era uma carreira de sucesso na mobilidade social e económica da Nova Republica. Bastava a militância e o cartão de sócio num  clube de primeira. Meu filho o futuro está garantido: o papa vai para político. Os políticos eram como os eucaliptos. Muitos e em grande mancha mas pouco ou nada úteis à sociedade onde se integravam. Secavam tudo ao seu redor.

A narrativa está suspensa. Os heróis desfaleceram. Os políticos são menores e ridículos. O Povo cai de si e sente que lhe mentiram. Foi tudo uma farsa.

Fica-nos a ironia, a raiva e a miséria resignada. Claro que não. Outros dias virão!...